Especialista em Relações Internacionais revela os interesses dos protagonistas da ordem e da desordem globais

Luis Fernando Ayerbe escrutina as mudanças pelas quais passa a ordem mundial, colocando em evidência a ressignificação do Estado-nação

http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539308064,tempos-de-reinvencao/capa

Basta olhar os noticiários para se ter uma dimensão da multiplicidade de processos políticos que tensionam o tempo presente. Com objetivo de entender as mudanças pelas quais passa a ordem mundial e detectar suas urgências e transformações, Luis Fernando Ayerbe apresenta Tempos de reinvenção: ordens antigas na desordem do mundo presente, lançamento da Editora Unesp. 

A obra se propõe a “abordar processos de polarização cuja radicalidade e cujo impacto, marcadamente nos extremismos culturalistas, parecem prenunciar um espírito de época, influenciando exaustivos debates interpretativos”, explica o autor. “Na pista das razões e dos interesses de grandes protagonistas da ‘ordem’ e da ‘desordem’ coloca-se a seguinte questão: como interpretar diferentes situações nacionais se vistas em perspectiva de um mal-estar sistêmico de alcance global em que a busca de expressão e representação desborda as fronteiras da oferta política existente?” 

Ao longo de seis capítulos, o autor conduz a análise das ideias de “ordem” e “desordem”, chegando até o debate atual sobre a crise de hegemonia dos Estados Unidos, em especial com a ascensão de Donald Trump à Presidência daquele país, com suas práticas de revisão das políticas externas e as relações sempre problemáticas com o mundo. 

Ayerbe ainda joga luz sobre a discussão de temas centrais, como populismo, autoritarismo e democratização, apontando para o caráter intrassistêmico de alternância entre neoliberalismo e social-democracia que, longe de representar soluções para as tensões políticas atuais, evidencia que estes são tempos carentes de reinvenção. “Entre questionamentos, insatisfações e ativismos que invocam alternativas a narrativas ocidentais novecentistas, desenham-se tempos de reinvenção no mosaico da desordem presente.”

Sobre o autor – Luis Fernando Ayerbe é professor-titular da Unesp, atuando no Departamento de Economia do câmpus de Araraquara e no Programa San Tiago Dantas de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Unesp, Unicamp e PUC/SP, além de pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre Estados Unidos (INCT-INEU) e do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI-UNESP). Pela Editora Unesp, publicou Negociações econômicas internacionais (2011, em parceria com Neusa Maria Pereira Bojikian), De Clinton a Obama (2009), Novas lideranças políticas e alternativas degoverno na América do Sul (2008), Ordem,poder e conflito no século XXI (2006), A Revolução Cubana (2004), Estados Unidos e América Latina (2002) e Neoliberalismo e política externa na América Latina (1998).

Título: Tempos de reinvenção: ordens antigas na desordem do mundo presente
Autor: Luis Fernando Ayerbe
Número de páginas: 189
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-393-0806-4

Assessoria de imprensa da Fundação Editora da Unesp

Mais informações estão disponíveis no site: http://editoraunesp.com.br/blog/especialista-em-relacoes-internacionais-revela-os-interesses-dos-protagonistas-da-ordem-e-da-desordem-globais

Pelo voto e com democracia, populações dizem não a onda neoliberal na América Latina

Guinada à direita pode estar perdendo força diante das consequências sociais e econômicas denunciadas pela Argentina, Chile e Equador. “Há uma crise em que os governos não estão conseguindo dar respostas”, avalia especialista

Publicado por Redação RBA 28/10/2019 13:07

No Chile, laboratório das políticas neoliberais, população se revela contra consequências econômicas e sociais decorrentes desse modelo. “Acordo com FMI e políticas que valorizam o mercado deterioram-se”

São Paulo – A onda neoliberal, favorável aos governos de direita, que se anunciava sobre a América Latina com a ascensão de políticos desse espectro pode, na verdade, perder força ainda antes de se instalar definitivamente na região, como se cogitava, destaca o professor de História e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luis Fernando Ayerbe, membro da Rede de Integração da América Latina e Caribe, à Rádio Brasil Atual.

Para o acadêmico, prova disso é a eleição da chapa Frente de Todos, de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, que derrotou, em primeiro turno, nas eleições presidenciais da Argentina neste domingo (27), o atual presidente, Mauricio Macri, que após colocar em curso um agenda neoliberal entrega uma Argentina mergulhada em uma crise econômica e social com pelo menos 35% da população em condições de extrema pobreza e 7% em extrema pobreza, segundo dados do Observatório de Dívida Social da Universidade Católica da Argentina (UCA).

O mesmo conjunto de medidas e ajustes fiscais em prol do mercado e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que levou o Chile e o Equador a uma convulsão social, protagonizando protestos históricos nas últimas semanas contra essa política e pela renúncia de seus governos, que emergiram em meio aos desdobramento da crise financeira de 2008 que, na América Latina chegou com força em meados de 2015, colocando o campo da esquerda em xeque e facilitando o crescimento da direita, que agora começa a ruir, como avalia Ayerbe. “Esse ciclo curto significa que há uma crise em que os governos não estão conseguindo dar respostas”, afirma o professor. “Acordo com FMI e políticas que valorizam o mercado sofrem mais rapidamente, deterioram-se”.

A Bolívia foi um dos poucos casos que, mesmo diante da campanha contra os governos mais à esquerda, manteve-se com a mesma linha e na semana passada reelegeu ao cargo o presidente Evo Morales. “Mas digamos que governar nesses tempos na América Latina tem um grande custo”, ressalta Ayerbe, citando como exemplo o Uruguai que, assim como a Bolívia, também permaneceu alinhada, mas após 15 anos do governo de esquerda da Frente Ampla, o partido terá de ir ao segundo turno com seu candidato, Daniel Martínez, que disputará o cargo com o presidenciável da centro-direita, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional.

Para o professor, diante das atuais dificuldades econômicas que vivencia a América Latina, “nenhum governo, por melhor que ele seja”, passará tanto tempo “sem sofrer desgaste”. “O governo da Frente Ampla teve muitas conquistas, a melhoria econômica, uma política no âmbito de costumes, de tolerância, governa desde 2004, e neste momento, uma crítica que se coloca é que ele não construiu aliança, porque ficou sozinho para o segundo turno frente aos três partidos mais à direita que somados têm mais votos para ganhar. Claro, pode ser que haja uma postura que traga indecisos para o campo da Frente Ampla. Então teremos que observar se a Frente Ampla consegue recompor apoios fora de seu partido para esse segundo turno em novembro”, finaliza.

Fonte:
https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2019/10/derrota-de-macri-e-protestos-no-chile-preconizam-e-o-fim-da-onda-neoliberal-na-america-latina/

Movimento de Cristina Kirchner põe cenário eleitoral argentino em polvorosa

Ao renunciar à candidatura à presidência em favor de Alberto Fernández, ex-presidenta quer romper o “teto” do kirchnerismo, unificar o peronismo e driblar sua própria rejeição.

Cristina é individualmente a liderança mais popular da Argentina

São Paulo – O movimento de Cristina Fernández de Kirchner, renunciando à intenção de se candidatar à presidência da República na eleição de outubro para lançar Alberto Fernández, pode ser criticado ou elogiado, mas o inesperado lance da ex-presidenta argentina trouxe incertezas a um cenário que parecia consolidado e, segundo alguns analistas, “letárgico”. Até aqui, pesquisas apontavam um segundo turno que ela própria disputaria com o atual presidente Mauricio Macri, com chance de vencer. A ex-presidenta tem entre 35% e 38% das intenções de voto, dependendo do cenário, contra cerca de 30% de Macri.

A surpreendente jogada de Cristina é chamada de fórmula Fernández-Fernández, em alusão ao sobrenome de ambos, e colocou em polvorosa não apenas setores mais conservadores do próprio peronismo, como o lado oposto, o Cambiemos de Macri. Do lado da mídia conservadora, o movimento é considerado sinal de “fragilidade” de Cristina.

Mas a solução tem objetivos evidentes, na opinião de Luis Fernando Ayerbe, coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Aparentemente foi um movimento inteligente, para tentar furar o teto do kirchnerismo (semelhante ao do PT no Brasil), unificar o peronismo e ser uma alternativa consistente a Macri.” A intenção de Cristina também é driblar sua própria rejeição, que é alta.

O professor observa, no entanto, que será preciso prestar atenção à reação do chamado “peronismo federal”, corrente mais conservadora ou centrista do Partido Justicialista. “Cristina tem um teto e muita rejeição. Outras forças mais de centro, do ‘peronismo federal’, têm candidatos que de alguma forma se apresentavam como alternativas. A ideia de Cristina é unificar o peronismo em torno dessa nova fórmula. Foi um movimento inesperado e interessante.”

A expectativa agora é sobre se a corrente conservadora do peronismo vai lançar candidato próprio ou se Cristina consegue esvaziar uma eventual candidatura alternativa. E também esperam-se as próximas pesquisas, para se medir a capacidade da líder transferir seus votos a Alberto Fernández, que, por sua vez, não é popular. Mas Macri tem contra sua candidatura enorme insatisfação popular, com pobreza e inflação crescentes, tarifaços e cortes de subsídios estatais.

Cristina continua sendo individualmente a liderança mais popular no país, apesar do chamado “teto”. “Dentro do peronismo, ela tem rejeição também”, diz Ayerbe. “O peronismo tem correntes mais conservadoras e mais à esquerda. Dentro dos setores mais conservadores, ela não é vista como uma boa opção.”

Alberto Fernández foi chefe de Gabinete dos governos kirchneristas de 2003 a 2008 (com Néstor e parte do primeiro mandato da Cristina). “Com a proposta, Cristina está acenando para uma perspectiva mais moderada do que foi anteriormente, para o empresariado, por exemplo, dizendo que é preciso uma composição por um novo pacto social. Não seria um governo mais à esquerda, mas tenderia mais ao centro, se ela se vencer.”

O kirchnerismo, com três mandatos desde 2003, guarda muitas semelhanças com o petismo de Lula no Brasil. Os Kirchner fizeram governos que provocaram muita oposição, mas o apoio herdado pela ex-presidenta se deve ao combate à pobreza,  ao crescimento econômico e programas de distribuição de renda.

Como Dilma Rousseff, Cristina enfrentou, paulatinamente, um cenário econômico mais difícil. Depois vieram denúncias de corrupção e processos judiciais, além do desgaste natural após três mandatos (um de Néstor e dois dela própria).

Cristina Kirchner tem várias acusações de corrupção. Como tem foro de senadora, não pode ser presa, a não ser que a Justiça peça a cassação de seu mandato, o que seria decidido pelo Senado, onde o peronismo tem maioria. “Como o peronismo está dividido, em tese poderia haver um racha, e ela perderia o mandato. Mas no atual contexto parece difícil”, avalia Ayerbe. Se for eleita vice-presidente, a garantia de foro continua assegurada.

Fonte: https://www.redebrasilatual.com.br/mundo/2019/05/cristina-kirchner-eleicoes-argentina/

Nascida há 100 anos, Eva Perón transformou política argentina

Primeira-dama na Argentina entre 1946 e 1952, ‘Evita’ lutou por mulheres e trabalhadores mais pobres. Morte precoce a transformou em mártirA

Eva Perón foi pioneira entre mulheres argentinas

Eva Perón foi pioneira entre mulheres argentinas

EFE/aa/27.06.1947

Em 7 de maio de 1919, vinha ao mundo em Los Toldos, na Argentina, María Eva Duarte Ibarguren. Cem anos depois, a data é lembrada como o nascimento de Eva Perón — ou Evita, como ficou conhecida internacionalmente a líder política e ex-primeira-dama que chacoalhou as instituições no país dos hermanos entre as décadas de 1940 e 1950.

“Quer você a ame ou a odeie, Evita é parte fundamental das mudanças institucionais pelas quais passou a Argentina no século 20”, comenta o americano Eduardo Montes-Bradley, diretor do documentário Evita, lançado nos Estados Unidos em 2008. Em entrevista ao R7, Montes-Bradley afirma que Evita foi uma mulher que “capturou o espírito de seu tempo”.

“Em uma sociedade patriarcal, ela provou que sabia trabalhar com os homens”, completa.

Arte R7

O contexto de ascensão dos trabalhadores

Eva Perón foi casada com Juan Domingo Perón, militar que presidiu a Argentina por três mandatos: de 1946 a 1952, de 1952 a 1955 e de 1973 a 1974. O casal se conheceu em um baile beneficente na cidade de Buenos Aires no ano de 1944. À época, Evita trabalhava como atriz na capital argentina e Perón era Secretário do Trabalho e Segurança Social.

“Ao mesmo tempo em que era um período de bastante conservadorismo, o contexto era de formação de uma classe de trabalhadores numerosa na capital da Argentina. Eram migrantes que vinham do interior, especialmente depois do processo de industrialização do país na década de 1930”, pondera Luis Fernando Ayerbe, professor de História e Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho).

“Juan Perón se destacava como alguém que se preocupava com políticas e direitos sociais para esses trabalhadores”, acrescenta o especialista.

Arte R7

Figura pioneira

Conta a história que foi amor à primeira vista: Juan se casou com Eva um ano depois de conhecê-la, poucos dias depois de ser libertado da prisão — ele havia sido destituído do cargo que ocupava por um golpe civil e militar que o colocou na cadeia em outubro de 1945.

Graças à popularidade que havia angariado junto aos movimentos sindicais e à classe trabalhadora, Perón foi eleito presidente no ano seguinte. “A presença de Evita foi muito forte na campanha e já naquele momento ela emergia como uma figura bastante peculiar: não havia uma tradição da participação das mulheres na política do país”, explica Ayerbe.

O documentarista Eduardo Montes-Bradley vai além: “Não haveria Juan Perón sem Eva. Ele era uma sombra dela, que foi uma mulher absolutamente bonita e carismática”.

Arte R7

Líder das mulheres e dos trabalhadores

Enquanto o presidente Perón se dedicava à missão de aumentar o emprego e o crescimento econômico na Argentina, Evita assumiu as bandeiras dos trabalhadores mais pobres — ou “descamisados”, como eles eram chamados — e do direito das mulheres ao voto.

“Ela ocupou um vazio, um espaço que até então não havia sido ocupado por ninguém — e tinha uma personalidade muito forte nesse sentido. Como ex-atriz e artista de rádio, possuía ainda capacidades de expressão e oratória muito importantes”, destaca o professor Ayerbe. Não foram poucas as vezes que, aclamada como “mãe dos pobres”, Evita discursou para multidões emocionadas que se aglomeravam em frente à Casa Rosada. 

Como consequência de suas articulações, o voto feminino — reivindicado pelas argentinas desde 1919 — foi sancionado por Juan Perón no país em 1947. Na América Latina, as mulheres do Equador (1929), do Brasil (1932), do Chile (1934), da Bolívia (1938) e da Venezuela (1946) já haviam conquistado o direito de votar.

Infelizmente, Evita registrou seu voto pela primeira vez deitada na cama de um hospital: pouco antes das eleições de 1951, das quais Perón saiu novamente vitorioso, a primeira-dama havia sido diagnosticada com um câncer avançado de colo de útero. Ela acabou morrendo em decorrência da doença em julho de 1952, aos 33 anos de idade.

Arte R7

A morte no auge

Para os especialistas ouvidos pelo R7, é consenso que a morte precoce de Eva Perón foi decisiva para sua consolidação como figura-chave na política argentina do século 20. “Os mártires não morrem tarde — e Evita partiu em seu auge”, lembra Montes-Bradley.

Ayerbe, da Unesp, reforça o coro: “Evita morreu como personagem central no regime de Perón, alguém indiscutivelmente a favor dos mais pobres e das mulheres. Com relação ao próprio Juan Perón, há controvérsias: ele é lembrado como alguém autoritário, conservador, associado ao Mussolini”.

A mais famosa — e comercial — das homenagens já feitas à ex-primeira-dama é a cinebiografia musical Evita, lançada em 1996 e baseada em uma peça de teatro de mesmo nome que fora encenada em Londres na década de 1970. No filme, a argentina é interpretada por ninguém menos que Madonna, cuja voz entoa a inesquecível canção Don’t Cry For Me Argentina (Não Chores Por Mim Argentina, em português).

Nos dias de hoje, há quem diga que a figura política que melhor incorpora o legado deixado por Eva Perón é Cristina Kirchner. Além de ser viúva do ex-presidente Néstor Kirchner, que governou no país entre 2003 e 2007, Cristina foi senadora pelas províncias de Santa Cruz e Buenos Aires e chegou a presidir a Argentina entre 2007 e 2015.

O professor da Unesp, contudo, discorda: “Cristina Kirchner teve marcas peronistas em sua liderança, mas traçou um caminho próprio e se fortaleceu dentro da política partidária. Ela foi eleita a cargos por voto popular e Evita, por outro lado, renunciou às oportunidades que teve de concorrer. Embora haja algumas identificações, são trajetórias completamente diversas”, finaliza.

Arte R7

Fonte:
https://noticias.r7.com/internacional/nascida-ha-100-anos-eva-peron-transformou-politica-argentina-07052019

Análise: Trump quer “atacar Venezuela hoje e derrubar Cuba amanhã”

Por Lúcia MüzellPublicado em 02-05-2019 Modificado em 02-05-2019 em 18:38

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Nesta quinta-feira (2), presidente Nicolás Maduro fez questão de mostrar o apoio que conta das Forças Armadas, após cerca de 100 desertarem e se unirem ao opositor Juan Guaidó.Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Os últimos dias marcam uma nova guinada na crise venezuelana, depois que o presidente autoproclamado Juan Guaidó lançou uma ofensiva para pressionar o presidente Nicolás Maduro a sair do poder. Apesar das trapalhadas que marcaram a ação, o opositor mantém o apoio firme dos Estados Unidos. O diretor de pesquisas sobre a América Latina do Iris (Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas) Christophe Ventura não tem dúvidas: o principal objetivo do presidente americano Donald Trump é acabar com o regime de Nicolás Maduro na Venezuela para, em seguida, derrubar o governo cubano.

“Os dois casos são indissociáveis para Washington”, sublinha. Na opinião do analista, a proximidade do fim do mandato faz Trump correr contra o tempo para conseguir o troféu de por um fim aos dois últimos regimes latino-americanos associados ao socialismo.

“O verdadeiro objetivo de Trump é derrubar Cuba – tanto que um dos principais argumentos dele é acusar Havana de intervir na política venezuelana”, afirma Ventura. “Não foi à toa que ele ameaçou Caracas de um embargo total na véspera de Guaidó lançar essa nova tentativa de assumir o poder.”

As sanções impostas por Washington a Caracas provocam duras consequências à fragilizada economia venezuelana. Trump determinou o embargo das transações petrolíferas com o país, atingindo em cheio a principal riqueza econômica dos venezuelanos. O aprofundamento da crise, em uma situação social e humanitária que já é catastrófica, deve forçar ainda mais o regime de Maduro a apresentar uma solução.

Estratégia é semear o caos

Os Estados Unidos não escondem que podem realizar uma intervenção militar na Venezuela, porém o especialista francês nota que as condições ainda não estão reunidas. Por enquanto, frisa, o plano é “estimular um clima de guerra civil”. “A estratégia é essa: repetir as imagens de afrontamentos generalizados, entre vários setores, um pouco como ocorreu na Líbia – guardadas as proporções, evidentemente. Isso poderia justificar a intervenção de forças estrangeiras, com Estados Unidos em primeiro plano”, explica.

A ofensiva em curso de Guaidó foi claramente improvisada: o opositor se precipitou ao avaliar que conseguiria chegar ao palácio de Miraflores com o apoio de apenas uma centena de militares. Nesta quarta-feira (1º), ele convocou uma greve geral, cuja adesão dos trabalhadores é incerta. No entanto, o objetivo de aumentar a instabilidade do país ganhou pontos.

“Não vimos uma tentativa de golpe, mas sim uma vontade de balançar tudo. Guaidó e seus aliados querem dar a entender que não há um retorno possível”, indica Pascal Drouhaud, vice-presidente do Instituto Choiseul, consultoria francesa especializada em América Latina. “A maior mudança foi que, pela primeira vez, mais militares apareceram claramente ao lado de Guaidó e isso pode marcar uma virada.”

Militares ganham ainda mais poder

O coordenador do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais da Unesp, Luis Fernando Ayerbe, ressalta que, mais do que nunca, a solução da crise parece passar pela atuação das Forças Armadas. “Até agora, o que se desenhava era que uma eventual transição política teria como principal protagonista o Guaidó, com o apoio do Grupo de Lima e a atuação dos Estados Unidos, com as sanções. Essa via se enfraqueceu porque houve uma grande aposta de uma divisão interna na Venezuela, que não se configurou”, explica Ayerbe.

“Agora, os militares vão tomar para si o comando de qualquer mudança, mesmo que com a eventual saída de Maduro. A oposição subestimou o poder da cúpula militar, que não quer sair como derrotada, já que isso significaria incertezas sobre o próprio futuro e quanto ao seu lugar na sociedade venezuelana”, nota o professor da Unesp.

Apesar de mal planejada, a ofensiva de Guaidó acaba por forçar o governo a dar uma resposta à crise. Os próximos dias devem ser decisivos nesse sentido. O especialista não descarta um golpe militar, mas avalia que as alternativas mais prováveis envolvem a participação do presidente chavista. “É possível que Maduro fique com um menor controle do poder e a maior parte fique com os militares. Eles também podem fazer uma negociação interna pela qual Maduro renuncia ou convoca novas eleições”, avalia Ayerbe.

Fonte:
http://br.rfi.fr/americas/20190502-analise-trump-quer-atacar-venezuela-hoje-e-derrubar-cuba-amanha

Maduro toma posse com chances reduzidas de terminar 3º mandato

Presidente da Venezuela assume para mais seis anos no governo, mas especialistas apontam que sobrevivência no cargo está cada vez mais difícil

Nicolás Maduro toma posse para terceiro mandato nesta quinta-feira (10)

Nicolás Maduro toma posse para terceiro mandato nesta quinta-feira (10)

REUTERS/Marco Bello/12.12.2018

A eleição foi apontada como fraudulenta pela oposição e não teve seu resultado reconhecido por vários governos. Enquanto isso, o país vive o colapso econômico e mergulha na pior crise humanitária de sua história. Ainda assim, Nicolás Maduro deve tomar posse como presidente da Venezuela pelo terceiro mandato consecutivo nesta quinta-feira (10).

A ideia do líder é permanecer no cargo por mais seis anos, mas, para especialistas ouvidos pelo R7, parece cada vez mais difícil que Maduro sobreviva no poder por tanto tempo.

Restrições internas e externas

“Muita coisa ainda pode acontecer. Recentemente, membros do Judiciário passaram a retirar seu apoio ao governo — nesta semana, um ex-juiz da Suprema Corte venezuelana fugiu para os Estados Unidos e denunciou Maduro. Essa era uma das poucas instituições que ainda sustentavam o presidente. A situação está se deteriorando”, aponta José Maria de Souza, doutor em Ciência Política e especialista em América Latina das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo.

Luis Fernando Ayerbe, professor de História e Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho), reforça o coro. “Seis anos parece um período improvável especialmente se a economia continuar como está, com as sanções de Donald Trump, dos Estados Unidos. Em termos regionais, a Venezuela também se revela cada vez mais isolada.”

As medidas restritivas do governo norte-americano atingem dirigentes da área econômica da Venezuela e impedem acordos com as autoridades que administram as contas públicas no país.

Nas Américas, o Grupo de Lima — formado por governos de Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia — declarou não reconhecer o resultado do pleito que garantiu a reeleição de Maduro.

Relação com as Forças Armadas

Na opinião de José Maria de Souza, a tendência é que o presidente continue recorrendo ao Exército para continuar no cargo. “As Forças Armadas ainda são o principal bastião da sobrevivência de Maduro no poder. Se ele perder o apoio dos militares, deve ficar bastante fragilizado”, avalia.

“O Legislativo — controlado pela oposição — já fez um apelo às Forças Armadas para deter Maduro, mas isso não significa que os parlamentares serão atendidos. Assim como não significa que Maduro vá sofrer um golpe caso perca o apoio dos militares. Ele pode renunciar se perceber que não se sustenta.”

Nesta terça-feira (9), relatórios publicados por dois grupos de direitos humanos revelaram que forças de segurança da Venezuela têm detido e torturado dezenas de militares acusados de conspirar contra o governo. As vítimas foram alvos de espancamentos, asfixia e choques elétricos.

Possibilidades de renúncia

Para Ayerbe, da Unesp, as chances de renúncia do presidente também parecem remotas: “É uma situação muito complexa. A própria eleição pela terceira vez mostra que Maduro continua com certa capacidade de se articular. Se não houver renúncia, é importante ainda lembrar que não é simples destituir um governo. O bolivarianismo se estabeleceu na Venezuela em 1999 e vem se mantendo no poder por uma série de interesses — inclusive de parte da população que foi beneficiada por programas sociais”.

Uma saída da crise, desta forma, não aparece no horizonte visível, segundo os especialistas ouvidos pelo R7. “A solução seria Maduro propor um pacto nacional, convencendo os atores políticos de que ele consegue retomar as rédeas da situação econômica e social para a Venezuela”, afirma Souza, das Faculdades Integradas Rio Branco.

“Mas isso já está descartado em um país onde grupos de esquerda se declaram oposicionistas e o Legislativo diz que o presidente é ilegítimo. Na minha opinião, um futuro próspero para os venezuelanos está na mão de outras lideranças, e não do Maduro”, conclui o professor.

‘Aconteceu em Cuba’

Venezuelano vivia na cidade de Barquisimeto

 

O venezuelano Pedro Sánchez, de 32 anos, que mora no Brasil desde 2016 e trabalha como engenheiro de sistemas em São Paulo, acredita ser possível que Nicolás Maduro consiga concluir seu terceiro mandato como presidente da Venezuela.

“Se a população deixar de lutar e o mundo virar as costas, ele pode conseguir, sim. Aconteceu em Cuba e não há garantias de que não vá acontecer em outro país”, diz.

Sánchez — que prefere não mostrar o rosto por medo de represálias — vivia na cidade de Barquisimeto, a mais populosa do estado de Lara, no oeste da Venezuela.

“Eu tinha uma empresa de engenharia de sistemas, mas fui obrigado a fechá-la porque não dava mais lucro por causa das medidas econômicas implementadas pelo governo. Cheguei ao Brasil por meio de um intercâmbio profissional que duraria um ano no Espírito Santo. Consegui trabalho em São Paulo e fiquei. Eu queria sair do meu país e este acabou sendo um meio muito bom para mim.”

O engenheiro crê que a saída de Maduro do poder depende de uma série de fatores. “Penso que o povo deve se juntar para protestar contra o governo. Quando eu estava lá, ia em todas as manifestações. Os militares com pelo menos um pouco de consciência também deveriam se rebelar contra a ditadura e forçar a queda de Maduro. Outra coisa importante é que todos os países democráticos reconheçam este ditador como ilegítimo”, detalha.

Se os rumos na Venezuela mudarem, Sánchez garante que voltaria. “Quero ver a minha família e, com o tempo, poder contar para meus netos tudo o que passamos, para que eles valorizem a liberdade.”

Fonte: https://noticias.r7.com/internacional/maduro-toma-posse-com-chances-reduzidas-de-terminar-3-mandato-10012019

Bolsonaro se convierte en el nuevo aliado de Estados Unidos e Israel

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El presidente brasileño Jair Bolsonaro (antes de su investidura) y el primer ministro israelí Benjamín Netanyahu en Rio de Janeiro, el 28 de diciembre de 2018.

La política exterior del presidente brasileño, Jair Bolsonaro, será muy trumpiana, no por nada le llaman el “Donald Trump de los trópicos”. Un primer cambio es el alineamiento con Washington en la cuestión palestino israelí. El mandatario israelí Benjamín Netanyahu acudió en persona a la investidura de Bolsonaro y no se descarta que Brasil cambie su embajada en Israel de Tel Aviv a Jerusalén.

El compromiso con las iglesias pentecostales, puntales en su campaña y las convicciones personales explicarían, en parte, este giro, que ya había adelantado Bolsonaro como candidato. “Algunos sectores de las iglesias evangélicas dijeron que éste era un punto importante para darle apoyo al nuevo gobierno”, asegura Luis Fernando Ayerbe, experto en Relaciones Internacionales de la Universidad estatal paulista.

Brasil, que siempre se ha caracterizado por tener una diplomacia pragmática y de equidistancia en los conflictos geográficamente lejanos, como Oriente Próximo, está a punto de empezar a jugar otro rol. El guion o al menos el escenario ya lo plantó el canciller de Bolsonaro, Ernesto Araújo con una lista de aliados conservadores.

“Admiramos a los que luchan por su patria (…) como Israel que nunca dejó de ser una nación incluso cuando no tenía territorio (…) Por eso admiramos a Estados Unidos (…) a los que luchan contra la tiranía de Venezuela (…) por eso admiramos a la nueva Italia, Hungría y Polonia” dijo Araújo en su discurso tras asumir el cargo este miércoles. Lejos queda la cooperación sur-sur que caracterizó a la diplomacia del Partido de los Trabajadores de Lula da Silva y de Dilma Rousseff (2033-2016).

Sin embargo, para Ayerbe, más allá de los discursos, esta nueva diplomacia puede tener consecuencias en la economía brasileña y en las exportaciones de carne brasileña a países árabes. “Los exportadores de carne están muy preocupados, hay todo un sistema de mataderos que cortan la carne según las directivas de la religión musulmana (halal), hay toda una preparación para satisfacer un determinado mercado y esos son millones y millones de dólares”, analiza Luis Fernando Ayerbe. Los países árabes representan el 40% de las exportaciones de carne bovina brasileña, según la Asociación Brasileña de Industrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Netanyahu espera un efecto dominó en América Latina

“El volumen de negocios y de comercio entre Israel con América Latina no es tan grande como para hacer de Latinoamérica un factor importante de la política exterior de Israel”, asegura Alfredo Tobías, profesor de Relaciones Internacionales de la Universidad Hebrea de Jerusalén.

El primer país en anunciar el cambio de embajada de Tel Aviv a Jerusalén, ciudad que también reivindican los palestinos, fue Estados Unidos con la llegada de Donald Trump a la Casa Blanca hace dos años. Le siguió Guatemala y luego Paraguay, aunque finalmente este último país se desdijo.

Ahora, Honduras y Brasil podrían ser los próximos en la lista, aunque este extremo aún no ha sido confirmado. Bolsonaro lo puede anunciar en cualquier momento, puesto que no necesita el aval del Congreso.

En el caso de Honduras, todo parece muy avanzado. Aprovechando los actos de investidura de Bolsonaro, el presidente hondureño Juan Orlando Hernández se reunió con Benjamín Netanyahu y con el secretario de EEUU, Mike Pompeo, y anunciaron una alianza política entre los tres países y estudiar el traslado de la embajada hondureña.

“Aquí lo que se está buscando es el efecto dominó, si Brasil pasa al lado de EEUU y Honduras le sigue, lo que piensan en Israel es que tal vez otros países les seguirán”, analiza Tobías.

El dominó no se armará de forma tan automática, según el analista brasileño Luis Fernando Ayerbe quien pone el ejemplo argentino y paraguayo. “La mayor comunidad judía en América Latina está en Argentina (300.000 personas) y el presidente Mauricio Macri en ningún momento ha hablado de esta cuestión, tiene una actitud más pragmática. Yo creo que difícilmente otros países van a acompañar la posición brasileña. Paraguay inició ese proceso y volvió para atrás. Evaluó el coste político. En la triple frontera entre Paraguay, Brasil y Argentina hay una importante comunidad libanesa que tiene un poder económico muy grande, así que supongo que se evaluó el coste beneficio de una medida como esa” concluye Ayerbe.

Fonte: http://es.rfi.fr/americas/20190103-bolsonaro-se-convierte-en-el-nuevo-aliado-de-estados-unidos-e-israel

Brasil: ‘El PT tiene que ver en qué anduvo mal y renovarse’

 

Brasil: 'El PT tiene que ver en qué anduvo mal y renovarse'

Durante más de tres décadas, el Partido de los Trabajadores (PT) de Brasil fue el partido de izquierda referente en América Latina, pero estos últimos años, esta fuerza política manchó su imagen con escándalos de corrupción, a lo que hay que sumar a su derrota en las últimas elecciones presidenciales. Le espera una ardua tarea de reconstrucción que no se anuncia fácil.

Tras la victoria de Jair Bolsonaro en las elecciones de este fin de semana, ¿cuál es el futuro del Partido de los Trabajadores? ¿Será la principal oposición de Bolsonaro?

Luis Fernando Ayerbe, historiador de la Universidad del Estado de São Paulo (UNESP), estima que el PT tiene que hacer una “autocrítica, mostrar que la subida de Bolsonaro no era sólo una cuestión ideológica sino que había cuentas previas del partido, del momento en que estuvo en el poder”.

Sin embargo, haber llegado “con tantos votos, a pesar de perder, significa que consiguió de alguna manera ampliar sus apoyos”. “Pensando en el futuro, el PT tiene que mirar hacia atrás, ver en qué anduvo mal, hacer una autocrítica y renovarse”, subraya el analista.

Lula da Silva, líder histórico del PT, está actualmente preso por corrupción.REUTERS/Rodolfo Buhrer

 

Pero más allá de eso, tiene que fijarse en el nuevo gobierno, “esperar a ver cómo este nuevo gobierno va a manejarse”, y si “el nuevo presidente respetará la Constitución, las libertades”.

En cuanto a Lula, Luis Fernando Ayerbe cree que “continuará siendo un liderazgo del PT, continuará teniendo influencia en el PT. Ahora, como liderazgo nacional con peso politico, está totalmente condicionado por su situación legal”.

Entrevistado: Luis Fernando Ayerbe, historiador de la Universidad del Estado de São Paulo (UNESP).

 

Fonte: http://es.rfi.fr/americas/20181030-brasil-el-pt-tiene-que-ver-en-que-anduvo-mal-y-renovarse

Qual o tamanho da crise argentina?

Eleito com a promessa de recuperar a economia, Mauricio Macri vê a inflação disparar, o crescimento estagnar e enfrenta protestos cada vez maiores da população. Nesta terça, enfrenta mais uma greve geral

22 de novembro de 2015. Com quase 13 milhões de votos (51,4% dos votos válidos), o empresário Mauricio Macri era declarado o novo presidente da Argentina. Uma vitória histórica. Pela primeira vez desde que se instituiu o voto direto no país, um candidato de direita liberal foi eleito sem apoio da ditadura, fraudes ou candidatos proscritos. Chegava ao fim um período de 12 anos do kirchnerismo, regime comandado pelo casal Néstor e Cristina Kirchner, que deixou o país com um baixo índice de crescimento econômico, inflação crescente e alta rejeição popular.

“É um dia histórico. Uma mudança de época. Um tempo que não pode deter-se em revanches ou ajustes de contas. Construir uma Argentina com pobreza zero, derrotar o narcotráfico e melhorar a qualidade democrática”, afirmou Macri em discurso após a confirmação da vitória nas urnas. Entre as propostas do novo presidente para alavancar a economia estavam a abertura a investimentos estrangeiros, diminuição da inflação para um dígito em dois anos e aumentar as exportações do setor agropecuário. A euforia tomou conta não apenas de uma grande parcela dos argentinos, como de lideranças de outros países.

Setembro de 2018. Menos de três anos depois da eleição histórica, a euforia se transformou em tensão e desesperança. Com o peso (moeda oficial do país) desvalorizado mais de 50% em relação ao dólar, inflação na casa dos 30% e a taxa de juros elevada recentemente para 60%, os argentinos se veem mergulhados em uma grave crise econômica que nem de longe remete ao discurso otimista de Mauricio Macri. Na expectativa de um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para tentar estancar o caos, o país teme reviver o fatídico ano de 2001, quando vivenciou uma das piores crises de sua história, que provocou violentos protestos nas ruas e levou à queda de dois presidentes.

Dois graves problemas: estagnação e inflação alta
Razões para temer o pior não faltam. A Argentina vive hoje o que os economistas denominam estagflação, que é a junção de dois graves problemas: estagnação econômica e inflação alta.

“Desde o fim do ano passado as políticas cambial e monetária entraram em um período errante e o dólar não parou de subir desde então, o que levou a uma aceleração de preços e consecutivas corridas contra o peso”, diz um relatório do Observatório de Políticas Públicas da Universidade de Avellaneda. Na prática, enquanto os preços sobem, os salários caem. Segundo o mesmo relatório, entre 2015 e 2018, o salário mínimo sofreu desvalorização de 54%, enquanto o salário médio apresentou uma redução de 17%.

Nos últimos meses, as manifestações populares têm se intensificado nas ruas de Buenos Aires e outras cidades argentinas. No último dia 13, milhares de professores fizeram uma paralisação de 24 horas e, junto com estudantes e outros trabalhadores, realizaram uma grande manifestação por melhores salários e em protesto contra as medidas de austeridade do governo Macri.

Para esta terça-feira (25) está marcada uma greve geral no país, a segunda no ano e a quarta desde que Macri assumiu o poder. Nas redes sociais, circulam vídeos de supostos saques que estariam ocorrendo em lojas e supermercados.

Equívocos e má sorte
A combinação que levou a Argentina novamente à beira do colapso é um misto de medidas equivocadas do atual governo com uma dose de má sorte. Nesse último quesito estão a valorização do dólar, que fez investidores tirarem dinheiro de países emergentes, e uma seca severa, que elevou o preço dos alimentos e reduziu o volume de exportações de grãos. O presidente, que já havia adotado medidas impopulares – como reajustar tarifas de energia e transporte, e mexer na previdência e nas leis trabalhistas – decidiu recorrer ao FMI.

Em junho, Macri anunciou um resgate do fundo no valor de US$ 50 bilhões (cerca de R$ 206 bilhões), divididos entre US$ 15 bilhões repassados de imediato e o restante parcelado até 2021. Não deu resultado. Como resposta, anunciou no início do mês novas medidas, que incluíam o corte de metade dos ministérios e uma nova taxação sobre as exportações.

Além disso, o governo negocia com o FMI a antecipação para 2019 dos US$ 35 bilhões a receber. Segundo o Ministério da Fazenda, até março o governo Macri havia acrescentado US$ 90,8 bilhões à dívida do país. Até 2017, a dívida externa argentina consumia 22,7% do Produto Interno Bruto (PIB), porcentual mais alto entre os países emergentes.

Presidente da Argentina, Mauricio Macri, enfrenta pesados desafios econômicos
EITAN ABRAMOVICH/AFP

Para Luis Fernando Ayerbe, professor de História e Relações Internacionais da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Macri se elegeu com uma promessa “demasiado otimista”. “Ele passou a confiabilidade de que resolveria rapidamente um dos grandes problemas da Argentina, que é a inflação alta. Acontece que os investimentos estrangeiros não vieram, a inflação não foi controlada e a economia cresceu pouco”, observa. Ele acrescenta que, apesar de o governo ter credibilidade junto à comunidade internacional, a instabilidade econômica faz com que investir no país não seja um negócio atraente.

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Andrés Ernesto Ferrari Haines, acredita que o atual governo “vendeu promessas fáceis” e acabou se iludindo.

A partir do momento em que não conseguiu adiar a adição de medidas econômicas mais duras, Macri optou por escolher a quem sacrificar e, por decorrência, a quem pouparia. Na minha perspectiva, a sua opção foi por beneficiar a especulação financeira, particularmente a cambial, em detrimento da produção e do emprego, que ficaram mais expostos às pressões competitivas externas em um momento especialmente complexo e incerto da economia mundial.

Perspectivas
Por mais que o aporte de recursos do FMI venha a evitar uma recessão ainda pior, as perspectivas para 2019 não são nada animadoras. Após as últimas medidas anunciadas pelo governo, o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, disse que a meta para o ano que vem é zerar o déficit fiscal, com a previsão de encerrar 2018 com uma inflação de 48%. Os especialistas, por sua vez, acreditam que a tendência é o país seguir em recessão.

“A partir de agora, o nível de ajuste exigido em nome do FMI não só aumentou, mas, também, faz transparecer que o governo se tornou um posto de comando das demandas do Fundo. Para piorar, como Macri sempre se esquivou de enfrentar a realidade e vendeu um quadro róseo, produziu-se uma situação em que a sociedade o contesta a partir da perspectiva, equivocada na minha visão, de que ajustes não são necessários, mas, sim, frutos das demandas do FMI. Assim, o conflito social está muito alto e o apoio ao governo é frágil”, sentencia Andrés.

Turbulência política
A iminência de uma crise que se arrasta rumo a 2019 traz preocupação dobrada para o presidente Mauricio Macri. Afinal, em outubro do ano que vem os argentinos vão às urnas eleger o próximo presidente e, ao que tudo indica, o atual mandatário vai em busca da reeleição. Nas eleições legislativas de 2017 Macri deu mostras de força ao manter maioria no Congresso, mas um agravamento da crise pode colocar em risco um novo mandato.

Segundo Ayerbe,

Ele [Macri] teve de reconhecer o fracasso naquela que foi sua grande promessa, de melhorar a economia. Sua tarefa maior será chegar ao final do mandato com uma situação pelo menos estável.

Não bastasse a crise econômica, a Argentina também sofre com uma grave crise política. Na última semana a Justiça pediu a prisão preventiva da ex-presidente e atual senadora Cristina Kirchner, acusada de chefiar uma organização criminosa que tinha como objetivo arrecadar propinas milionárias de empresários por meio de obras públicas. O escândalo denominado “Cadernos da corrupção”, veio à tona no início de agosto, apoiado em uma investigação que apontou um esquema que teria operado entre 2005 (no governo de Néstor Kirchner, marido de Cristina, morto em 2010) e 2015.

Brasil vai sentir efeitos diretos e indiretos
Para os brasileiros, a grande pergunta que fica mais uma vez é: até que ponto a crise argentina afeta o Brasil? Em um primeiro momento, o impacto direto é na balança comercial. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do país, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Só no setor automotivo, por exemplo, as exportações do Brasil para o país vizinho correspondem a 75% do total.

Por enquanto, os números não mostram impacto da crise por aqui. Dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços indicam que, de janeiro a agosto, os argentinos consumiram 7,28% das exportações brasileiras. O volume corresponde a uma alta de 1,11%, com saldo favorável ao Brasil de US$ 4,28 bilhões. Mas, em entrevista à Agência Brasil, o presidente da Câmara de Comércio Brasil-Argentina, Federico Antonio Servideo, disse que desde abril vem ocorrendo uma desaceleração da atividade econômica entre os países.

Leia também: Crise e corrupção minam as forças dos principais políticos argentinos

“A capacidade de consumo das famílias argentinas vai ser, significativamente, afetada pela crise cambial e pelas medidas de contenção de despesas e da taxação sobre as exportações”, afirmou Servideo, que projeta uma queda de 20% nas encomendas argentinas nos últimos quatro meses de 2018.

O professor Luis Fernando Ayerbe, da Unesp, acredita que o risco maior para o Brasil não está exatamente na crise que afeta a Argentina, mas nos fatores que contribuíram para agravar a situação do país. Com a valorização mundial do dólar, tanto o peso argentino quanto o real brasileiro perderam valor, o que afasta investidores estrangeiros. A proximidade entre os dois países pode contribuir com essa reticência. “O Brasil também tem sua própria crise, que não é tão grave porque as nossas reservas são maiores. Mas o quadro geral barateia as exportações e diminui a competitividade. Ou seja, um país não ajuda o outro”, explica Ayerbe.

Cuba precisa esclarecer projeto estratégico de socialismo da futura Constituição, diz especialista

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Cubanos consultam exemplar com texto da futura Constituição enquanto aguardam o início de um debate popular em Havana.

Os cubanos estão sendo chamados a opinar até o dia 15 de novembro sobre uma nova Constituição aprovada pela Assembleia Nacional em julho, que, entre outras reformas, reconhecerá o papel do mercado e a atividade privada na economia da ilha. Ainda é uma incógnita se o debate popular irá enriquecer o texto.

 

Na nova Carta Magna, o Partido Comunista de Cuba (PCC) mantém a tutela sobre a sistema político enquanto partido único. Por outro lado, o texto traz avanços no combate às discriminações, abrindo caminho, por exemplo, para o casamento entre homossexuais.

O termo “comunismo”, segundo a perspectiva marxista-leninista introduzida pela Constituição de 1976, desaparece da nova Carta, substituído por um modelo de socialismo aberto ao mercado. Até agora, a lei fundamental vinculava Cuba ao sistema de países liderado pela ex-União Soviética e que considerava o socialismo uma etapa de transição entre o capitalismo e o comunismo, visto como ponto de chegada final da revolução.

A futura Constituição cubana incorpora as reformas iniciadas pelo ex-presidente Raúl Castro. O Estado deixa de existir como um órgão de dominação política e assume um papel mais administrativo. São admitidas diversas formas de propriedade: estatal, mista cooperativa, individual e privada, inclusive na agricultura. Os cubanos são estimulados a trabalhar por conta própria, para si mesmos, não apenas para o Estado. Porém, orientado pelo pensamento fidelista, marxista e leninista, o PCC cubano permanece como órgão que conduz o processo de edificação do socialismo.

Na avaliação do professor de História e de Relações Internacionais da Unesp Luis Fernando Ayerbe, ainda não está claro o que significaria o socialismo do ponto de vista estratégico na futura Carta. O especialista considera incoerente que o PCC tenha mantido a denominação “comunista” na sigla, se o objetivo final da revolução está descartado.

Embora a futura Constituição não traga mudanças efetivas no sistema político, alguns artigos abrem perspectivas de mudança nos direitos individuais. As instituições poderão ser transformadas a partir de mecanismos eleitorais, segundo o especialista. Será restituída a figura do presidente da República – atual presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros – e será criado o cargo de primeiro-ministro. O presidente do país terá um mandato de cinco anos, podendo ser reeleito pelo mesmo período. Por outro lado, uma outra reforma manteve o sistema socialista como irrevogável, aponta Ayerbe.

Para o cientista político Carlos Alzugaray, o novo sistema será muito institucionalizado e a agilização no processo de debate tem relação com a falta de carisma do presidente Miguel Díaz-Canel, no poder desde abril. O novo presidente cubano não dispõe da mesma popularidade dos irmãos Fidel e Raúl Castro. “Díaz-Canel quer começar a governar, e Raúl quer que ele dirija o país de maneira diferente dos irmãos Castro”, opina Alzugaray.

Modelo chinês

Segundo o historiador Ayerbe, o processo de abertura da China, iniciado por Deng Xiaoping (1904-1997) após a morte de Mao Tse-Tung (1893-1976), serviu de modelo para várias propostas da nova Constituição de Cuba. As autoridades cubanas estudaram em profundidade o Direito chinês, adotando, por exemplo, a ideia do mandato presidencial com reeleição e a idade limite de 60 anos para candidatos.

Um ponto de avanço notável, que contempla anseios das novas gerações, é o casamento definido como a “união entre duas pessoas”, e não mais entre homem e mulher. “A abertura de que o casamento não tem gênero nem definição de sexo também estabelece o direito à não discriminação”, destaca Ayerbe. “Isso terá impacto sobre questões de raça, de gênero e de opção sexual, o que é um grande avanço”, acrescenta.

Opositores da Mesa de Unidade de Ação Democrática (Muad), que agrupa várias organizações dissidentes, elogiaram a proibição de discriminação por raça, credo, gênero e limitações físicas prevista no novo texto, mas exigem igual posição em relação a outros direitos humanos.

Cerca de 8,5 milhões de cubanos maiores de 16 anos, de uma população de 11,2 milhões, estão convocados a opinar sobre o texto em 135.000 assembleias de consultas populares que se realizarão em sindicatos, centros estudantis, e nos bairros. O novo texto está à venda por um preço simbólico em exemplares impressos. Os critérios expostos pela população serão recolhidos por escrito e transferidos diariamente a um centro de processamento, até 15 de novembro, data que encerra o debate público. “Mas é difícil saber qual será a elasticidade de aceitação das sugestões dos cidadãos”, diz Ayerbe.

Pela primeira vez, os cubanos emigrados poderão participar de um debate político da ilha, ao enviar seus critérios por via digital, em um site que a chancelaria cubana habilitará no começo de setembro. O governo estima em 1,4 milhão o número de cubanos no exterior, dispersos em 120 países, embora com núcleos muito importantes nos Estados Unidos, na Espanha, no México e na Colômbia.

O texto resultante da “consulta popular” será submetido a referendo vinculante em 24 de fevereiro de 2019. A data lembra o começo da Guerra de Independência de Cuba contra a coroa espanhola, em 1895.