Desapego

“A renúncia é a libertação. Não querer é poder”
“O maior domínio de si próprio é a indiferença por si próprio”.
Fernando Pessoa, O livro do Desassossego

Don Juan dijo que todos cuantos me conocían tenían una idea sobre mí, y que yo alimentaba
esa idea con todo cuanto hacía. Debes renovar tu historia personal contando a tus padres, o
a tus parientes y tus amigos todo cuanto haces. En cambio, si no tienes historia personal, no
se necesitan explicaciones, nadie se enoja ni se desilusiona con tus actos. Y por sobre todo,
nadie te amarra con sus pensamientos. Borrar la historia personal nos libera de la carga de
los pensamientos ajenos.
Carlos Castaneda, Viaje a Ixtlan

Descobrimos que não existimos
Que nada permanece e a vida nada mais é
Do que ficar na solidão sob a chuva,
Esfriar lentamente e despertar para o sol
Por breves momentos antes da noite definitiva
Jane Soares de Almeida, Vinho Antigo

¿En qué preciso momento de la vida empezamos a ser “otros”, cuando comienza a importarnos
lo que antes no lo hacía y viceversa?
Graciana Ayerbe, El Oasis

A celeridade do mundo moderno passa a impressão aos mais velhos que estão diante de um mundo a desmoronar.
E de certa forma possuem razão… Vive-se hoje uma “crise de identidades” no que tange à sexualidade e a vida profissional dos sujeitos sociais.
Eliane Cardoso Lopes, Relacionamentos Contemporâneos

O “Desaparecer de si” expressa comportamento revelador de “estratagemas dos nossos
contemporâneos para deslizar-se da malha do tecido social e renascer em outro lugar,
com outra versão de si mesmo, ou bem apagar-se na discrição, a solidão, a ausência”.
Trata-se de uma forma de rejeição da carga existencial através da Brancura, mecanismo
que suspende o “mundo de maneira provisional ou duradoura (…) uma posição de
espera quando o indivíduo busca ainda seu lugar no mundo e este não cessa de esquivá-lo.”
David Le Breton, Desaparecer de Sí

Desapegar-se, tornar-se uma espécie de página em branco, desaparecendo de
personagem atribuído desde um exterior expressivo do espírito dominante da época,
seja através da família, da escola, da sociedade, do trabalho, renascimento em outra
versão de si mesmo.
Para Le Breton, exemplos de desaparição de si podem ser encontrados no recolhimento
consciente, ou por depressão frente a situações traumáticas; fugas por meio de atividade
profissional ou militância exacerbadas; condutas de risco pela transformação do corpo
em espaço de experimentação (prática de esportes radicais, ingestão sistemática de
substâncias químicas, tatuagens).

                                                                             * * *

O PODER DA INDIFERENÇA

* Não sei a origem da expressão, mas a ouvi quando aguardava numa esquina para
atravessar a rua, no centro de Buenos Aires. Dois homens conversavam e de
repente um deles levantou a voz e disse, com ar de satisfação, “los maté con la
indiferencia”.
Não imagino o contexto, o tema e os personagens que animavam a conversa,
mas continuei pensando na frase. A indiferença como arma letal. Contra quem,
contra que?
A eficiência de qualquer arma se mede pela capacidade de neutralizar o alvo
para o qual se destina. O que se torna indiferente deixa de ser objeto de
preocupações, nos liberta. Mas como o mesmo processo pode ultimar um outro?

*O alvo é atingido naquilo que alimenta sua existência, minhas expectativas sobre
seu poder, influência, importância, e as suas expectativas de que o valore, o
emule, o deseje, o odeie.
Um assassino imaginário que ignora olimpicamente suas vítimas, las mata con
la indiferencia.

* No século XIX, o império chinês começou a despertar crescente interesse por
parte das potências ocidentais, desejosas de aceder a um mercado em torno de
300 milhões de pessoas naquela época. No entanto, encontravam pela frente a
forte resistência das autoridades do país, cuja tradição tinha sido desdenhar as
ofertas de abertura ao intercâmbio comercial. A confiança da elite governante na
superioridade inquestionável e inabalável do seu modo de vida desestimulava a
curiosidade sobre o que acontecia no resto do mundo. Porque empreender
relações com povos bárbaros que nada têm a oferecer e têm tudo a ganhar com
as realizações do Império do Meio?
A pesar desse senso de superioridade, não estavam preparados para lidarem com
o poder militar e a ambição expansionista da grande potência industrial e militar
da época, Inglaterra, que iniciou uma ofensiva irresistível para impor à China a
liberalização comercial. Em 1842 e 1857, o imperador foi obrigado a assinar
tratados que permitiram a abertura de portos marítimos e a navegação de rios
interiores para a entrada de mercadorias estrangeiras. A vitória sobre o governo
chinês foi total e os agressores obtiveram aquilo que exigiram. Um inesgotável
mercado estava aberto e pronto para ser ocupado.
Na prática, e por motivos não previstos, as expectativas se frustraram. Trinta
anos depois do primeiro tratado, a China exportava muito mais do que
importava, seu chá e sua seda continuavam a atrair os consumidores ocidentais,
mas o mesmo não ocorria com os chineses, que “inexplicavelmente”, se
mostravam indiferentes aos bens da moderna indústria europeia, o que incluía os
mundialmente famosos tecidos ingleses.
Alguns comerciantes, atribuindo o fato ao descaso das autoridades e aos altos
impostos, chegaram a pressionar a coroa inglesa para que obrigasse a China a
comprar suas mercadorias, mas os representantes da Rainha Vitória no país já
tinham consciência de que o problema era outro: os chineses não precisavam de
produtos que nunca tinham sido parte dos seus hábitos de consumo. Não havia
nada a ser feito.
As grandes potências arrasaram o poder do imperador como um furacão, que
após o impacto inicial devastador, foi perdendo força, diluindo-se no vazio
inusitado da indiferença do povo chinês.

* O descaso da população chinesa não é comparável às práticas indianas de
desobediência civil e não-violência lideradas por Mahatma Gandhi contra o
império inglês. A indiferença não é uma forma de militância, um exercício de
conscientização impulsionado por ativistas que buscam criar um movimento
contra um alvo específico.
A indiferença sinaliza o não interesse, sem gestos grandiloquentes. Como
conceber uma busca sistemática pelo que não desejamos? Apenas ignoramos ou
rejeitamos oferecimentos, nos tornamos letais àqueles que pretendem, sem
sucesso, nossa interlocução.
Somos indiferentes, mas também nos tornamos indiferentes. Como o amor que
acaba, após ter despertado uma paixão abrasadora, invadido os nossos
pensamentos, que de repente se esvai e não sabemos muito bem o porquê, ou
como recuperar os momentos precisos que sinalizavam uma decadência que
passava desapercebida. Mas nada há a fazer quando os sentimentos
desaparecem.
Podemos nos tornar indiferentes pelo conhecimento de outras indiferenças que
passamos a compartilhar. Mas isto não ocorre por um processo indutivo, de
convencimento, de propaganda. Nos persuade sem palavras, despertando
sensações, se instala e nos habita.
A indiferença é inimiga da propaganda. Como dizia Jorge Luis Borges,
referindo-se à ingenuidade e à estupidez: “Vivemos num tempo muito, muito
ingênuo; por exemplo, as pessoas compram produtos cuja excelência é
anunciada pelos mesmos que os vendem”. Não há como promover a indiferença.

* Dar ao César o que é de César. Na referência bíblica, pagar os tributos com a
moeda cuja imagem inscrita é o rosto do chefe supremo do poder terreno. Numa
leitura mais abrangente, obedecer às leis e às hierarquias que estas pressupõem,
mesmo que nos pareçam injustas.
As interpretações podem ser variadas: a prédica da subserviência, o princípio
moral de fazer aos outros o que gostaríamos que fizessem a nós, vingar-se
pagando com a mesma moeda. Prefiro uma quarta: o desprezo do Outro.
Num mundo em que caibam vários mundos, como diz a palavra de ordem do
Movimento Zapatista, setores poderosos na sua capacidade de exercer a
violência, mesmo que de mentalidade pouco sofisticada, devem ser contentados
naquilo que motiva sua primitiva existência. Quanto mais satisfeitos com sua
percepção de domínio, menos incomodarão e melhorarão as condições para criar
espaços de convívio que reflitam uma concepção diferente de coletividade.
Quem resiste com os mesmos métodos, terminará se igualando. Nessa
concepção, foi o que ocorreu com os cristãos quando se institucionalizaram em
igrejas e com os comunistas após tomarem de assalto o poder. Sendo esse o
resultado previsto, para que investir os escassos recursos disponíveis numa
disputa antecipadamente perdida?
Da mesma forma que a não-violência e a desobediência civil, “dar ao César o
que é de César” transforma um sentimento negativo em pregação e militância.
Seu princípio ativo é peculiar, obedecer aquele que desprezo enquanto construo
meu universo paralelo. Como forma de rejeição, se aproxima da indiferença,
mas na medida em que demanda uma conscientização deliberada, difere
qualitativamente.
O poder da indiferença se revela na espontaneidade de quem não toma
conhecimento.